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O melhor de todos

Dom Pedro José Conti

Bispo de Macapá

Um pássaro, um peixe, um coelho e um pato se encontraram na beira do rio e começaram a contar as suas aventuras. Cada um queria mostrar que era o melhor de todos. O pássaro foi o primeiro e disse:

– Quando um caçador se aproxima de mim, eu saio voando como um foguete. Num instante desapareço. O peixe comentou em seguida:

– Toda vez que eu vejo um pescador, eu nado com a maior destreza. Em segundos, estou num lugar seguro. O coelho, por sua vez, disse:

– Quando vejo um caçador chegando, eu, com a minha esperteza, começo a correr como uma bala e vou para bem longe dele. O pato, com ar de superioridade, por achar que os companheiros eram limitados, foi para o meio da roda e disse:

 – Eu sou um privilegiado. Se o caçador me persegue, eu posso despistá-lo como quero. Eu consigo voar como um pássaro, posso nadar sobre as águas como um peixe e sei correr velozmente. Posso escolher qualquer saída. Modestamente, tenho habilidades demais. A discussão ia longe quando, de repente, ouviram um barulho. Lá vinha um caçador. Num piscar de olhos, o pássaro voou para o alto, o peixe mergulhou nas profundezas e o coelho aos pulos, alcançou a mata para se esconder. O pato, com tantas habilidades, não decidiu a tempo e foi apanhado.

A arrogância em declarar as suas capacidades superiores às dos demais não salvou a vida do pato. Na hora da verdade, o orgulho serve pouco. O evangelho do Quarto Domingo do Tempo Comum é a continuação da página de Lucas do domingo passado. Quando Jesus acabou de ler o profeta Isaías e anunciou a realização das promessas de Deus e das esperanças do povo, os habitantes de Nazaré ficaram encantados com suas palavras. Logo, porém, lembraram das suas origens, da família e dos parentes. Começaram as dúvidas e os questionamentos. Se, de verdade, ele fosse “o ungido”, aquele que realizaria as profecias, porque não começava na própria cidade a fazer as coisas extraordinárias que, diziam, tinha feito nas cidades vizinhas? Jesus não aceita o desafio; tem uma missão maior a cumprir. Ele não será o profeta somente de Nazaré. A Boa Notícia do amor de Deus será oferecida a todos, porque todos os pobres e sofredores merecem ser libertos e felizes.

Deus não ama somente o povo escolhido de Israel, quer vida plena para todos os seus filhos e filhas, também para as viúvas e os leprosos pagãos e estrangeiros, como já tinha acontecido no passado. Essas palavras feriram o orgulho dos habitantes de Nazaré como também sempre ferirão os ouvidos de quem gostaria ter um “deus” exclusivamente ao seu lado. Mas o Deus Pai, que Jesus veio anunciar, não tem cor de camisa e nem de bandeira. O lado dele será sempre o dos órfãos e das viúvas, dos desamparados, dos famintos e sofredores. Estará ao lado daqueles que amam, também se parecem perdedores aos olhos dos grandes do momento. Nunca esqueçamos que Jesus foi crucificado no meio de ladrões, para nos libertar de todos os poderes que oprimem os pequenos e injustiçados. Com esta página, o evangelista Lucas nos antecipa as dificuldades que Jesus encontrou – e pelo jeito sempre vai encontrar – de revelar o rosto paterno e misericordioso do Pai.

Penso que podemos comparar a situação apresentada no evangelho deste domingo a uma grande ocasião perdida. Os habitantes de Nazaré podiam ter pedido para ele o que muitos pobres, doentes e sofredores gritaram: “Jesus, mestre, tem compaixão de nós!” (Lc 17,13). Se tivessem dado ouvido as suas palavras, talvez aquele povo teria sido a primeira cidade a praticar o amor fraterno. De lá teriam saído os primeiros missionários; os primeiros mártires da esperança de um mundo novo. Da “Galileia dos pagãos” teria se espalhada uma luz nova para todos. Talvez. Mas nada disso aconteceu. Foi o contrário; o orgulho os cegou. Jesus ficou só. Outros, porém, o seguiram e deram suas vidas por causa do Reino e, assim, a Boa Notícia chegou até nós. Agora é a nossa vez de acolher, escutar e seguir Jesus que passa. Por causa do nosso orgulho e da nossa autossuficiência podemos perder mais uma oportunidade. 

 

 

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